“Teatro é tão presente na minha vida que superei a morte da minha avó com isso” — atriz (c/áudio)

Cidade da Praia, 27 Mar (Inforpress)  – A atriz da Companhia de teatro Fladu Fla Vandrea Monteiro disse hoje, em declarações à Inforpress, que o teatro é tão presente na sua vida que foi através dele que conseguiu superar a morte da avó.

No Dia Mundial do Teatro e Dia da Mulher Cabo-verdiana, que se celebram hoje, a Inforpress conversou com esta jovem, de 31 anos, que vê no teatro uma oportunidade de se expressar, de dar vida às estórias, de fazer as pessoas rirem e, ao mesmo tempo, de reflectir sobre o assunto em cena.

Vandrea Monteiro, também conhecida por Jacky, contou que foi aos 08 anos que começou a ter o primeiro contacto com o teatro, mas que só em 2006, com 18 anos, é que começou a dar passos “mais sérios”, ao integrar a Companhia de Teatro Fladu Fla.

Entretanto, depois de concluir o ensino secundário,  esta jovem teve de partir para Portugal para fazer o curso de Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa, deixando um pouco de lado o palco.

“Tanto que gosto de representação escolhi o curso de Jornalismos e como também sou apaixonada por projectos sociais pensava que como jornalista poderia dar voz aos outros e tendo vivido, também em Bela Vista, um bairro carenciado, foi uma experiência fantástica porque isso criou em mim esta vontade de ajudar, de dar voz, de falar, de estar presente e de estar no palco”, disse.

Durante a sua formação superior em Portugal, recordou, recebeu a triste notícia da morte da sua avó e por estar longe de casa e dos familiares começou a sofrer de depressão e teve outros problemas de saúde.

Contou ainda que durante uma consulta uma médica percebeu que ela amava o teatro e em vez de enviá-la a um psicológico, resolveu inscrevê-la numa acção de formação sobre teatro.

“O teatro é tão presente na minha vida que quando a minha avó morreu (…) aquilo foi a minha terapia, eu consegui superar a morte da minha avó com aquilo. A superação começou com o teatro”, afirmou.

Depois desta formação, sempre que vinha de férias a Cabo Verde aproveitava para ensaiar com o grupo Fladu Fla, pois, em Portugal, nunca teve a oportunidade de entrar numa peça, apesar de sempre dar o seu máximo, porque nunca era a escolhida, por “não ser branca e por ter sotaque cabo-verdiano”.

Depois de dez anos a viver em Portugal, Vandrea Monteiro decidiu trabalhar em Inglaterra, onde viveu durante um ano, mas em 2016 recebeu um convite para integrar um projecto ligado à sua área de formação, em Cabo Verde.

Entretanto, a primeira coisa que fez, disse, foi ligar para o presidente da Companhia Fladu Fla, Sabino Baessa, para saber como é que andava o grupo, tendo sido informada de que estava um “pouco parado”.

“Eu queria voltar e Fladu Fla foi o empurrão que eu precisava”, disse, afirmando que o projecto que viria a fazer parte não funcionou, mas continuou no país com o projecto de reactivar o grupo teatral, que naquela época era constituído por apenas três mulheres.

“Costumam brincar que eu fiz renascer o Fladu Fla, mas foi todo um trabalho de equipa. Eu voltei, queria começar de novo e também havia pessoas com essa sede e vontade e lá acordamos o Fladu Fla”, enfatizou.

Com 12 anos de carreira, a mesma fonte diz sentir-se orgulhosa pelo facto de ser mulher, mãe, esposa, cidadã do mundo, jornalista e ainda tem a força de ser actriz, porque o que mais lhe motiva é lutar pela afirmação do teatro na ilha de Santiago.

“Já subi palco em Macau (Ásia), em Portugal (Europa) e em Cabo Verde (África) e acho que com 31 anos já fiz muito que me pode dar essa facilidade de falar e de poder fazer coisas boas”, enfatizou.

Vandrea Monteiro, que já esteve na pele de sinhá, na peça “Profecia de um crioulo”, de demónio, no “Homem eterno prisioneiro” e de uma mãe, no “Menos um”, disse que de todos os papéis o que gostou mais foi do demónio.

“Sou apaixonada por essa personagem porque me tira completamente de mim. Aquilo foi brutal, porque é a chorar, babar é tipo um maluco que nasce do chão até ser Amílcar Cabral”, disse, ajuntando que almeja um dia representar uma prostituta ou uma esquizofrénica.

Instada a comentar sobre a participação das mulheres no mundo do teatro, a actriz mostrou-se orgulhosa pelo percurso feito por outras mulheres que hoje lhes permite subir ao palco e representar.

Para além de actriz, afirmou, neste momento está a ter a oportunidade de desenvolver mais as suas habilidades a escrever guiões, uma vez que está a preparar uma adaptação da obra Chiquinho, com a co-produção do grupo Chão de Oliva de Sintra (Portugal).

Sobre o futuro, a mesma fonte vê-se ainda “mais enrolada” no mundo da arte e deseja dar à estampa o seu primeiro livro de crónicas e reactivar o seu projecto social “Contacto”.

Sendo que no teatro trabalha à base do voluntariado, a actriz, aconselhou os jovens a não ficarem à espera do apoio do Governo para conseguir realizar algo, mas sim para correrem atrás dos seus sonhos.

“Governo não é a salvação da pátria, porque se formos esperar só pelo Governo este grupo não existiria e eu não seria o que sou hoje”, enfatizou.

AM/AA
Inforpress/Fim

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