Santa Cruz: “Hoje fazemos justiça ao batuque, finaçon e funaná ao homenagearmos Nha Nácia Gomi e Séma Lopi” – ministro da Cultura (c/áudio)

Pedra Badejo, 28 Out (Inforpress) – O ministro da Cultura e das Indústrias Criativas afirmou hoje que ao homenagear Nha Nácia Gomi e Séma Lopi se está a fazer justiça ao batuque, finaçon e ao funaná, que ainda têm deficit de reconhecimento.

“Hoje,  é um dia que fazemos justiça à cultura de Cabo Verde, ao batuque, ao finaçon e ao funaná”, afirmou Abraão Vicente, em declarações à imprensa, à margem da inauguração do busto de Nha Nácia Gomi, e as obras de requalificação do Centro Cultural Séma Lopi, antigo “Cineteatro de Porto Abaixo”, no município de Santa Cruz, no interior de Santiago.

“Fazer eventos e actividades culturais não são suficientes para homenagear a nossa cultura. É preciso perenizá-la no tempo (…) e inspirar esta geração para que possam ver que quem fez de facto com consistência que Cabo Verde reconhece”, observou.

“Cabo Verde tem uma dívida histórica com figuras nacionais, e no caso da ilha de Santiago, e no caso do batuque, finaçon e funaná, temos um deficit de reconhecimento do próprio povo cabo-verdiano”, continuou o governante.
Para Abraão Vicente a homenagem à “rainha do batuque e finaçon” Nha Nácia Gomi é também um tributo às mulheres cabo-verdianas.

Além do busto colocado em frente à rotunda que dá acesso à Ribeira Seca e à Achada Fazenda, Nha Nácia Gomi também emprestou o seu nome e ganhou uma moral na mesma circular desse município “eminentemente agrícola”.

“Este é um momento que reconhecemos uma grande figura [Nha Nácia Gomi] e também uma homenagem às mulheres cabo-verdianas, porque Nha Nácia Gomi, com o seu lenço amarrado na cabeça, com toda a sua indumentária, postura e todo o trabalho que fez durante a sua vida acaba por ser um percurso igual ao de uma mulher comum”, disse, acrescentando que que “Nha Nácia Gomi é rosto de batucadeiras e finançon hoje em dia”.

Por outro lado, esclareceu que esta homenagem não é só por causa da elevação do batuque ao património nacional e dos planos para elevar este género musical cabo-verdiano ao património da humanidade.

Sobre a atribuição do nome de Séma Lopi ao Centro Cultural, que alberga o Centro Interpretativo Semá Lopi/Funaná, no âmbito do programa “1 auditório por município”, o governante explicou que tem como objectivo ser um pequeno palco que artistas ainda não consagrados e os consagrados possam fazer os seus primeiros concertos e incentivar e fomentar arte a nível comunitário.

“O centro cultural é um espaço para valorizar a comunidade local, e o centro interpretativo é para que as pessoas possam conhecer um pouco da história e para que possa ter dividendos para a comunidade. Ou seja, centro interpretativo tem como objectivo consolidar a pesquisa que estamos a fazer à volta do funaná e para elevá-lo ao outro patamar, tanto a nível nacional como internacional”, indicou.

Na ocasião, o ministro da Cultura anunciou que tanto Semá Lopi e Antão Barreto (Santa Cruz), e Codé de Dona (São Francisco) vão ter os seus bustos, tendo garantido que os de Orlando Pantera (São Lourenço dos Órgãos) e Bibinha Cabral (Tarrafal) já estão prontos e vão ser entregues ainda este ano.

Por sua vez, o presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz, Carlos Silva, que lembrou que o município que dirige tem um “património cultural forte”, defendeu que perpectuar a memória de Nha Nácia Gomi com o busto e atribuir o nome de Semá Lopi ao Centro Cultural vão ajudar na promoção da cultura.

É que, segundo disse, tendo em conta que ambicionam tornar Santa Cruz num destino turístico por excelência, acredita que os dois projectos materializados em parceria com o Governo, ora inaugurados, que se juntam às campas fúnebres das “grandes figuras” do concelho e à Igreja de São Tiago Maior, vão ajudar na promoção do turismo cultural, religioso e paisagístico.

As duas homenagens “do povo de Santa Cruz e de Cabo Verde” observadas pelos familiares, perante muitos munícipes e artistas, acontecem no âmbito do Dia da Cultura e das Comunidades, assinalado no passado dia 18 de Outubro, sob o lema “Somos Cultura”.

Nha Nácia Gomi (Maria Inácia Gomes Correia), a mulher da célebre frase “Sima nu kre nu ka podi sta, mas sima nu sta nu ka podi fica” (Como queremos não podemos estar, mas como estamos não podemos ficar) encontrou no batuco a forma de explicar o mundo como o via.

Nascida na antiga Vila de Pedra Badejo, hoje cidade, no concelho de Santa Cruz, a 18 de Julho de 1924, Nha Nácia Gomi foi uma das vozes da resistência cultural cabo-verdiana.

Considerada a ‘rainha do finason’, ficou também bastante conhecida como uma contadora de estórias. Muito da sua música era improvisada no momento.

Gravou três discos e participou em muitos mais como convidada. Em 2005 lançou dois álbuns: ‘Finkadu na Raiz’, com o tocador de batuque Ntóni Dênti d´Ôro, e ‘Ku ses Mocinhos’.

Séma Lopi (Simão Tavares Lopes), que nasceu no ano 1941, era um simples agricultor que se tornou num exímio tocador de gaita e compositor de renome do funaná.

É autor de várias composições musicais, entre as quais “Ôi, Séma Lópi, côrpu dí tchõ, álma dí Crístu”, tendo trabalhado no mundo da música com Carlos Alberto Martins (Katchás), fundador do Bulimundo, que gravou várias das suas composições.

FM/JMV
Inforpress/Fim

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