República do Irão faz 40 anos com “muitos erros” mas é jovem e vai evoluir – especialista

Lisboa, 30 Mar (Inforpress) – A iraniana Sépideh Radfar considera que houve “muitos erros” desde que a República Islâmica foi criada faz na segunda-feira 40 anos, mas confia na evolução de um regime que em termos históricos é “muito jovem”.

“Há muitos erros, há muitos (…) Há reconhecimento às vezes. Depois houve alguns erros graves em que não houve reconhecimento”, declarou à agência Lusa a especialista em língua e cultura persa a propósito dos 40 anos do regime iraniano.

Directora do Centro de Iranologia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Sépideh Radfar está em Portugal desde 1995 e vive fora do Irão desde o final dos anos 1980, mas vai acompanhando a situação no seu país, que também visita.

“A revolução é muito jovem, (…) 40 anos é nada perante a história (do Irão), depois de 2500 anos de dinastias, monarquia, sistema monárquico”, assinala.

A República Islâmica do Irão, proclamada a 01 de Abril de 1979, substituiu a monarquia do Xá Mohammad Reza Pahlavi e o país passou a ter uma legislação baseada no islamismo xiita e como a mais alta autoridade política o Líder Supremo, simultaneamente a mais alta autoridade religiosa, na altura o ‘ayatollah’ Ruhollah Khomeini.

Sépideh Radfar diz ser “uma pessoa otimista” e considera que o Irão “está numa evolução (…) positiva”, salientando que “o povo iraniano é muito exigente, (…) muito politizado”.

Defende que é necessário “deixar o próprio sistema político do país encontrar o seu caminho” e alerta contra os “comentários de fora”, que considera gerarem uma muito maior sensibilidade do regime às questões.

“Quando os movimentos, as exigências, são por dentro do próprio Irão é melhor que não haja demasiada sensibilização sobre isso”, diz.

Exemplifica com o caso das campanhas contra o uso obrigatório do véu islâmico pelas mulheres iranianas.

“Uma menina tirou o lenço (…) ainda bem, é uma jovem (…) Depois o sistema político iraniano, os responsáveis reagem, tudo bem, mas depois o mundo inteiro vai apoiar esta menina. A situação fica mais grave (…) Deixem as meninas desenrascar-se”, pede.

A professora universitária lembra que o Irão está novamente a ser alvo de sanções por parte dos Estados Unidos, uma “guerra económica” que diz deixar o sistema político iraniano “numa situação histérica, porque o objectivo do país é encontrar caminhos para dar de comer ao povo”.

Quando em 2015 foi assinado o acordo nuclear entre as grandes potências e o Irão houve “uma grande respiração (…) grande alívio, seja para o povo, seja para o próprio sistema político”, considera, adiantando que “ninguém esperava” que o Presidente norte-americano, Donald Trump, rompesse o acordo em Maio de 2018 e instaurasse novamente fortes sanções económicas.

“Ninguém esperava que um grande símbolo da democracia internacional fosse rasgar o acordo que o próprio Presidente anterior propôs (…) uma vez que até países europeus confirmaram que o Irão nunca faltou ao seu compromisso (…) desde Novembro que temos novas sanções muito fortes contra o Irão. Isso preocupa-me (…) quem vai sofrer mais é o povo”, diz Sépideh Radfar.

“Eu sou uma pessoa otimista (…) Eu digo (…) depois da Revolução Francesa tivemos tanto sangue, tivemos (Maximilien) Robespierre (figura destacada da revolução responsável por uma repressão sangrenta), tivemos (Napoleão) Bonaparte, outra vez monarquia (…) até chegar à V República (a actual)”, adianta, para concluir que se a Revolução Francesa “símbolo de revoluções no mundo teve a sua história” então um país como o Irão “com tal antiguidade” ainda está “no início da revolução”.

Lusa/Inforpress

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