REPORTAGEM: Murais abrem portas das aldeias à proteção das tartarugas em Cabo Verde

Tarrafal, Cabo Verde, 04 Out (Inforpress) – A organização ambientalista cabo-verdiana Lantuna está a envolver a comunidade das principais praias de desova do Tarrafal na preservação das tartarugas marinhas, pintando murais de alerta que agora todos querem ter em casa.

Entre as aldeias de Trás-os-Montes e Ribeira da Prata, duas das aldeias vizinhas de praias de desova monitorizadas desde Julho pelos elementos da Lantuna no município do Tarrafal, já são dez murais, sobre temas do mar e as tartarugas, que deram também nova cor e vida a casas antes por pintar.

“O objectivo é abarcar cada vez mais casas. Mas estamos a fazer isso por etapas, porque dependemos do financiamento. Então, consoante vamos tendo financiamento, vamos pintando mais casas. Há mais pessoas aqui na aldeia que querem ter as suas casas pintadas”, explica Ana Veiga, diretora-executiva da Lantuna, em entrevista à Lusa em Trás-os-Montes, extremo norte da ilha de Santiago.

Naquela aldeia, junto à praia de Medronho, um dos principais pontos de desova de tartarugas marinhas na ilha de Santiago, três casas foram pintadas em Setembro por este projecto da Organização Não-Governamental (ONG) Lantuna, que tenta sensibilizar a comunidade para a proteção de uma espécie em risco e que para muitas comunidades da ilha de Santiago ainda é vista como alimento.

“Trabalhamos na conservação das tartarugas marinhas no município de Tarrafal de Santiago e aqui em Trás-os-Montes é umas das comunidades que fica próxima de uma praia que já tem um histórico de captura de tartarugas marinhas e de consumo da sua carne”, acrescenta.

O impacto destes murais, afirma, é duplo: “Envolvendo as pessoas nos trabalhos de conservação e atraindo turistas para estas comunidades, gerando mais rendimentos”.
Sílvia Ribeiro, 53 anos, viu a entrada da sua casa, na aldeia de Trás-os-Montes, transformada num mural de cor e tartarugas.

“Gosto das pinturas, ficaram bonitas, toda a gente ficou contente. A casa ficou melhor, fresca”, conta à Lusa.

Doméstica e agricultora, garante que gostou do resultado dos três dias em que as equipas estiveram na aldeia, juntando cerca de 20 pessoas e dois artistas nas pinturas dos murais: “Acho que as pinturas ficaram bonitas, ficaram boas. Como iria ficar bonita, mandei pintar e acho que ficou bom”.

E conta mesmo que gostava que outras casas da aldeia fossem também pintadas com murais, precisamente por poder ser um ponto de atração turística, gerando outros rendimentos.

Nas quatro praias monitorizadas no Tarrafal pela Lantuna, com o apoio de 70 pessoas, entre técnicos da organização, guardas e voluntários, já foram controlados mais de 400 ninhos e nenhuma captura entre as tartarugas que chegam para desovar.

“Mas sabemos que nas praias em que infelizmente não temos condições para monitorizar já houve capturas”, reconhece Ana Veiga, mas elogiando o crescente “envolvimento” das comunidades junto a cada praia.

“Estamos a ver mudanças nas atitudes, mas ainda há um longo caminho pela frente (…) Há mais portas abertas, mas também depende das pessoas e também depende das comunidades. Porque há aquelas comunidades que ainda não tiveram a oportunidade de ter nenhum trabalho de sensibilização e aí as portas estão mais fechadas”, conta.

Este foi o segundo ano de trabalho no terreno da Lantuna, na protecção do período de desova, que vai habitualmente de Julho a Outubro, e depois na eclosão dos ovos de tartarugas marinhas, chegando agora a mais praias e a mais comunidades.

“Sem dúvida que neste segundo ano houve maior esforço em termos de recursos humanos, maior número de voluntários também, tivemos mais apoio financeiro, conseguimos alargar as nossas parcerias com várias instituições, o que tem permitido fazer um trabalho mais consistente e consequentemente também ter resultados mais positivos”, admite a responsável daquela ONG, assumindo que no futuro o trabalho é para alargar a atuação.

“O objectivo é cobrir toda a costa oeste da ilha de Santiago”, afirma, apontando que isso só não aconteceu em 2021 por falta de financiamento.

E insiste que em geral, nas comunidades próximas das praias de desova que já recebem as equipas da Lantuna, existe uma “maior abertura” para a necessidade de conservação das tartarugas marinhas.

“E de um modo geral, se compararmos há dez anos, hoje as pessoas estão muito mais sensibilizadas. Mas sem dúvida que a captura e o consumo ainda representam uma realidade na ilha de Santiago”, aponta.

Cabo Verde introduziu legislação para proteger as tartarugas marinhas pela primeira vez em 1987, proibindo a sua captura em épocas de desova, mas desde 2018 está em vigor uma nova lei, que tipifica outros tipos de crime, nomeadamente o abate intencional, bem como a aquisição, a comercialização, o transporte ou desembarque, a exportação e o consumo.

O arquipélago tornou-se em 2020 no segundo mais importante ponto de desova de tartarugas marinhas, com o número de ninhos num recorde de quase 200.000, segundo números divulgados em Março passado pelo ministro do Ambiente, Gilberto Silva.

De acordo com o responsável, Cabo Verde viu o total de 10.725 ninhos de tartarugas detetados no arquipélago em 2015 aumentar para 198.787 ninhos em 2020, “quase 19 vezes mais”.

“Cabo Verde passou a ser o segundo ponto mais importante da desova de tartarugas marinhas no mundo”, afirma o governante.

“Com a educação ambiental, vigia de mais de 180 quilómetros de praias e aplicação da nova legislação que criminaliza a caça e o consumo das tartarugas, a taxa de captura diminuiu significativamente, de 8,25% em 2015 para 1,54% em 2020”, acrescenta.

De acordo com dados da Direção Nacional do Ambiente, o melhor ano de nidificação das tartarugas marinhas em Cabo Verde tinha sido 2018, com um total de 109.126 ninhos registados, muito mais do que os 44.035 de 2017, os 30.470 do ano de 2016 e dos 10.725 no ano anterior.

Inforpress/Lusa/Fim

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