Perfil: “Enquanto Deus me der forças estarei lá feliz e motivada para continuar a embelezar as ruas – “Né” calceteira (c/áudio)

**** Por Carmen Martins, da Agência Inforpress ****

Cidade da Praia 27 Mar (Inforpress) – Manuela Rocha, orgulha-se de ser única calceteira no município da Praia e afirma que “enquanto tiver saúde e força de vontade” irá desempenhar a sua profissão com amor e determinação e contribuir no embelezamento das ruas da cidade.

Manuela Rocha, carinhosamente conhecida na sua comunidade por “Né” fez essas considerações durante uma entrevista que concedeu à Inforpress a propósito do Dia da Mulher Cabo-verdiana que se comemora hoje, 27 de Março, data que foi instituída para homenagear todas as mulheres de Cabo Verde, pelo seu contributo dado no processo do desenvolvimento do País.

Sendo assim e aproveitando esta efeméride, a Inforpress foi conhecer a história de Manuela “Né” Rocha, uma mulher “de uma força interior admirável” que, há treze anos, trocou o concelho de São Lourenço dos Órgãos pelo bairro de São Pedro, na Cidade da Praia e abraçou a profissão de calceteira.

Casada, mãe de quatro filhos, Manuela considera ser uma mulher “forte” e “guerreira”, que muito cedo sentiu a necessidade de “correr atrás dos objectivos” para ajudar a sua família e conquistar o seu lugar numa sociedade que, segundo disse, está cada vez mais “desigual”.

Conforme contou à Inforpress, em termos de profissão, durante muitos anos fez trabalhos de curta duração como empregada de limpeza, mas devido ao pouco nível de escolaridade, que lhe impossibilitou de conseguir um trabalho melhor, “hoje orgulha-se de se ter firmado numa profissão que lhe proporcione mais garantias e melhores condições”.

Conforme explicou, no entanto, com o tempo, começou a trabalhar como servente nas obras e foi a partir dali, segundo lembra, que começou a ajudar os calceteiros, colocando pedras, isto, quando a mão-de –obra faltava. E foi nessa altura, quando ainda morava no concelho de São Lourenço dos Órgãos, que com ajuda e paciência dos seus amigos pedreiros, aprendeu a arte de calcetar.

Em 2006, mudou-se para a Cidade da Praia e continuou a trabalhar como servente nas obras.

Confessa que sentiu algum receio no início em se apresentar como calceteira, por ser uma profissão desempenhada maioritariamente por homens e que, por outro lado, talvez não estava preparada para “encarar a reação das pessoas da capital”.

Entretanto, o amor à profissão e a necessidade de garantir o sustento dos seus filhos fez com que ela acabasse por encher de coragem e se assumir definitivamente como calceteira e começar a trabalhar naquilo que hoje define de “embelezamento da Cidade da Praia”.

“Meu primeiro trabalho na Praia foi no bairro Eugénio Lima. Um dia, conversando com o responsável da obra de calcetamento, o Zigui, enquanto varria a rua, disse-lhe que eu sabia calcetar, ele não acreditou, insisti que sim, que era verdade, ele ficou surpreso, olhou para mim e disse-me que se realmente sabia calcetar que fosse ter com o seu grupo de trabalho no bairro de Eugénio Lima”, lembra, Manuela, sublinhando que logo no dia seguinte arrumou as suas coisas e foi ter com o grupo de trabalho e fazer o que realmente gosta.

“Lembro-me desse dia como se fosse hoje porque quando cheguei lá, alguns homens perguntaram-me se eu era ajudante. Fiquei com um pouco de receio, mas respondi descontraidamente para eles que não, que estava ali para calcetar. Alguns não acreditaram, mas assim de rompante todos ficaram surpreendidos quando peguei nos materiais e comecei a calcetar”, afirmou.

Segundo “Né”, naquele dia, muitas pessoas que passavam por lá não resistiam à curiosidade e paravam para admirar uma mulher, que com a firmeza nos braços calcetava juntamente com os homens, confirmando-lhe assim que essa profissão ainda não é uma coisa tida como “normal” na sociedade cabo-verdiana.

“No início fiquei com vergonha, mas depois essa sensação foi desaparecendo e deu lugar a um sentimento de orgulho e felicidade. Senti-me orgulhosa por estar naquele momento a fazer o que eu gosto e por causar admiração nas pessoas”, exclamou, afirmando com os olhos marejados de lágrimas que está feliz por estar a conseguir cumprir o que ela considerou ser um “desígnio de Deus”.

Apesar de ser uma profissão quase exclusivamente de homens, Manuela Rocha diz que se sente bem na companhia dos colegas, que foi muito bem aceite por eles, que sempre a acarinharam e trataram bem.

Segundo ela, muitas vezes durante o serviço os rapazes até brincam com ela lembrando-lhe, a propósito, que “já que as mulheres estão à procura de igualdade de género têm que efectivamente trabalhar de igual para igual”.

Mas lembra também com muita satisfação, que a sua família sempre a apoiou, Aliás, quando questionada qual foi a reação do marido quando ela começou a trabalhar como calceteira, também sublinha com satisfação que o mesmo nunca a proibiu de trabalhar, mas também nunca a apoiou directamente. No entanto, sentia que ele respeita a sua escolha, até porque realçou, “só o salário dele não chega para cobrir as despesas da casa…”.

“Meu marido nunca foi contra que eu trabalhasse como calceteira, mas também não disse que queria que eu fosse. Mostra interesse em saber do meu trabalho, mas não falamos muito sobre isso e sei que no fundo ele se orgulha de mim e fica contente quando ouve elogios a meu respeito”, afirmou soltando um largo sorriso nos lábios.

Não obstante os desafios da profissão, “Né” declara com firmeza que não tem quaisquer dúvidas de que quer continuar a trabalhar nessa área e que já se acostumou com o cansaço provocado pelos dias de serviço, sublinhando, por outro lado, que com o tempo entendeu que com amor e força de vontade tudo na vida fica “suportável” e mais “leve”.

“Quando termino o meu dia de trabalho e chego em casa já nem me lembro do cansaço, o único sentimento que eu tenho é o de dever cumprido e de sentir que o meu dia foi produtivo. Nesse instante a única coisa que faço é agradecer, agradecer e agradecer a Deus por tudo o que tem feito por mim até agora”, exclamou.

Informou, que nesses anos de serviço já transcorridos calcetou no bairro de Eugênio Lima, São Pedro, Achada Grande Frente, Chã d´Areia, Prainha e Tira Chapéu e na cidade de Assomada, e realça que sempre que está a trabalhar, ela se torna o centro das atenções e que crianças, mulheres e homens param para admirá-la e encorajá-la a continuar.

Instada a comentar sobre como vê a situação actual da mulher cabo-verdiana, lamentou o facto de ainda haver morosidade na justiça, persistir os casos de Violência Baseada no Género, crimes e violações sexuais, pouca mulher na vida política, de não haver neste momento “nenhuma mulher presidente de câmara” e de Cabo Verde não ter conseguido eleger ainda uma mulher para desempenhar papel de primeira-ministra ou Presidente da República.

No dia que se comemora dia da Mulher Cabo-verdiana, Manuela “Né” Rocha apela a todas as mulheres que façam planos, plantem as suas sementes para que amanhã possam colher os frutos e realizar os seus sonhos, salientando que na vida tudo que vale a pena requer luta e força de vontade.

“Eu encontrei o meu caminho, uma razão que me motiva para levantar a cada manhã e estar lá sempre feliz e motivada para fazer o meu trabalho. Por isso apelo a todas as mulheres que lutem pelos seus sonhos e que não desistam”.

“E se o caminho for algum trabalho mesmo que duro e desempenhado maioritariamente por homens, não sintam receio, desafiem a si próprias para alcançar os objectivos, pois, temos que ser batalhadoras e vitoriosas porque estamos aqui para triunfar, dar a volta por cima e ser valorizadas, amadas e respeitadas por todos”, enfatizou.

CM/FP

Inforpress/Fim

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