PERFIL: António Fortes, pescador mais velho de Salamansa que ainda se “desenrasca” na profissão aos 88 anos de idade (c/vídeo)

*** Por Letícia Neves, da Agência Inforpress ***
Mindelo, 28 Out (Inforpress) – A idade não é um problema para o pescador mais velho de Salamansa, António Luís Fortes, que aos 88 anos ainda consegue se “desenrascar” na profissão, viver sozinho e ainda consertar materiais para pesca de tubarão.

“Nascid e criod” (nascido e criado, em português) na vila piscatória de Salamansa, São Vicente, no meio de oito irmãos, o ancião contou à Inforpress que o mar sempre foi algo bem presente na sua vida, desde que veio ao mundo a 02 de Janeiro de 1935.

Assim sendo, a pesca igualmente sempre foi a sua paixão, mas também quase representou a sua morte aos quatro anos, numa das vindas da ilha deserta de Santa Luzia, um dos locais de prestígio para os pescadores da sua zona e onde sempre ia com o pai.

Como conta, vinham num grupo de três botes e uma onda revirou a embarcação onde estava com o pai e os dois foram parar ao mar, ele dentro de uma bolsa de pano, que quando não tinha as refeições servia de sua alcofra, devido ao seu pequeno porte, e o pai caiu ao mar com os pés emarrados pelas linhas de pesca.

“Os pescadores que vieram socorrer-nos não deram conta que eu estava por baixo do bote, pensavam que eu tinha ido ao fundo, e estavam somente a socorrer o meu pai que se afogava e com a dor de ter perdido um filho”, descreve a cena, da qual diz não ter memória, mas, sim contada pelos seus familiares e gente da zona.

António Fortes, também conhecido em Salamansa por “Ti Toi”, garante que deverá ter estado debaixo de água por 20 minutos ou mais, quando tinham socorrido os sobreviventes e até já estavam na fase de retirar a água do bote e recuperar as cordas e lonas.

“Foi o meu tio que se apercebeu que ao puxar uma lona, algo tinha ido para o fundo, despiu-se, atirou-se ao mar e foi buscar-me, mas, disse que me tinha achado, mas eu estava morto”, relatou, com a ideia de que Deus e a natureza que não lhe deixaram morrer, porque mesmo dentro do bote e dado como morto, só lhe prestaram atenção após outra criança amiga, com quem brincava sempre em Santa Luzia, alertou os adultos que ainda piscava os olhos.

Acabou por ser salvo, após ser posto a cheirar “grogue” (aguardente de cana sacarina), que vinha na embarcação mandada de Santo Antão, e depois pelas mulheres da zona que fizeram os procedimentos para a sua reanimação, já em terra.

Mesmo assim, Ti Toi não passou a ter medo do mar, muito pelo contrário, assume que foi a sua paixão pela pesca que o deixou sem estudar, chegando ao ponto de em vez de irà escola, ir pescar na praia de João Évora (Jon d´Ébra, como é popularmente conhecido).

Sem como fugir a esse destino de pescador, aos 14 anos propôs ao pai colocar os estudos de lado e passar a ajudar na pescaria e no sustento dos outros irmãos.

A partir dali, o mar tornou-se na sua casa, e protagonista dos momentos mais marcantes da sua vida, desde o nascimento do seu primeiro filho, que aconteceu em Santa Luzia, até passando pela sua fase de emigrante por 38 anos (1965-2003), como marinheiro por diversos países do mundo, entre estes Brasil, Grécia e Inglaterra.

Hoje, 20 anos regressado àterra e com 88 anos nos ossos, não se conforma com a sua condição de terceira idade, sempre que pôde ou que um amigo lhe empresta um bote, dá uma escapadela pela baía de Salamansa e Baia das Gatas para caçar um tubarão, uma das suas pescas predilectas.

“Se alguém me dá conta de ter visto uma sarda, apanho a minha lança e vou, quando regresso tenho algo para comer e para a minha gente também”, disse, adiantando que distribui parte para os familiares e o resto vende para ter algum dinheiro.

Também na pesca de tubarão, Ti Toi é “especialista” porque mesmo com a sua idade avançada, é o único da vila a consertar e produzir equipamentos, utilizados por ele próprio e por outros pescadores locais.

“Mas, não me sinto cansado, tenho cá os meus instrumentos de ´longline´ [pesca de peixes maiores] para me distrair e me sinto feliz”, assegurou, dando Deus “santas graças” por tudo que já viveu.

Satisfeito e também bem lúcido, o ancião-pescador diz-se consciente da sobre-exploração da pesca no País, e mais precisamente em Salamansa, pelas diferentes gerações.

“Os nossos avós pescaram aqui, os nossos pais também, eles criaram-nos aqui, é de se louvar que ainda dê algum”, advertiu, aconselhando os mais novos a agradecerem a cada sorte que tiverem no dia-a-dia.

Da sua parte, garante viver a vida muito calmamente, se desenrascando sozinho na sua casa, mas, acompanhado das gentes da sua comunidade, e gozando os dias restantes, que até podem ser muitos se se confirmar a premonição da sua madrinha, após o acidente dos seus quatro anos, que passou a dizer-lhe que só irá morrer bem, bem velhinho.

 

LN/JMV
Inforpress/Fim

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