Médico-cirurgião cubano apela autoridades cabo-verdianas a possibilitar-lhe exercer no país (c/áudio)

Espargos, 02 Nov (Inforpress) – O médico-cirurgião Yosmel Cabrera apelou hoje às autoridades cabo-verdianas a permitir-lhe exercer no país, no Sal, concretamente, onde se encontra a residir e carece de especialista nessa área, após terminar o contrato da cooperação médica Cabo Verde-Cuba.

Yosmel Cabrera procurou a comunicação social para contar a sua história, referindo que vinha exercendo a profissão no arquipélago, desde 2020 ao abrigo do acordo de cooperação entre Cuba e Cabo Verde, no Hospital Baptista de Sousa, em São Vicente, com um contrato de prestação de serviço de dois anos, prorrogado até Abril de 2023 e nesse quadro inscrito, temporariamente, na Ordem dos Médicos.

Durante o mês de Março de 2023 exerceu as funções de cirurgião no Hospital Ramiro Figueira, no Sal.

Entretanto, finalizado o contrato no marco desta cooperação disse que, perante o cenário de “profunda crise” social e económica em que Cuba se encontra “há vários anos”, ele e sua família, esposa e filho de quatro anos, decidiram viver em Cabo Verde, tendo realizado todos os procedimentos necessários para obter a sua residência legal, equivalência e homologação dos seus diplomas de medicina e cirurgia geral.

Yosmel Cabrera lamentou o facto de, desde 03 de Junho 2022, ter solicitado uma nova inscrição na Ordem dos Médicos de Cabo Verde, para continuar a exercer a profissão no país, mas até ao momento, conforme explicou, não obteve nenhuma resposta, por não ser mais detentor de um contrato de trabalho.

“Cumpri cabalmente o meu contrato com o governo cubano e com o Ministério da Saúde de Cabo Verde e o cumpri com zelo, profissionalismo e dedicação aos meus pacientes”, desabafou, indicando que perante preocupação das autoridades do município do Sal, face à falta de cirurgião na ilha, estas desenvolveram esforços no sentido de possibilitar a sua integração nos serviços do Hospital Regional do Sal, mas até à data não tem sido possível iniciar as funções.

“Ao longo dos últimos seis meses, manifestei a várias instâncias públicas o meu interesse em continuar a trabalhar neste país, livre e democrático e que tem grandes necessidades em recursos humanos qualificados”, exteriorizou, o cirurgião de 36 anos, para quem o seu trabalho e de outros especialistas cubanos que estão também em situação semelhante, poderiam “ajudar a colmatar” as necessidades de especialidades em vários serviços por todo o País.

Para fazer valer a sua linha de pensamento, o doutor Yosmel ilustra, analisando, que o acordo de cooperação médica entre Cabo Verde e Cuba custa ao país “milhares de contos e não contribui para que Cabo Verde se muna de uma estrutura robusta de profissionais qualificados, pois tem gerado uma dependência de pessoal médico por décadas”, salientou.

No seu entendimento, contratar médicos residentes em Cabo Verde, contribuiria, significativamente, para a melhoria do sistema de saúde cabo-verdiano, além de poupar ao país “milhões de escudos”.

Ao fazer as contas, disse que Cabo Verde paga mensalmente ao governo cubano, um salário base de cada especialista no valor de 154 mil escudos, para as urgências hospitalares, um valor mínimo de 38 mil escudos, e 17 mil escudos para chefia de serviço.

“Além disso, assume o pagamento das rendas de casas onde se alojam os médicos cubanos, gás, água, luz, electricidade e o transporte residência-hospital-residência, bilhetes de passagens aéreas Cuba-Cabo Verde-Cuba, que ultrapassam os 120 mil escudos cada um, no início e fim do contrato e nas férias do cooperante, ajuda de custo para envio de contentores com os bens pessoais de cada médico, no final do contrato, num valor aproximado de 77 mil escudos”, reforçou.

Praticamente seis meses desempregado, a viver das suas poupanças, actualmente fora da sua área de actuação, enquanto médico-cirurgião, e por ter de sobreviver e sustentar a família, Yosmel Cabrera está a trabalhar num dos hotéis da cidade turística como técnico de sustentabilidade.

“O facto de não voltar a Cuba no fim do contrato de cooperação, automaticamente significa a impossibilidade de poder visitar a minha pátria e a minha família por um período de oito anos ou em caso de retorno, uma pena de prisão que vai de três a cinco anos. Apesar de tudo isso, e da dor que me provoca, decidi não regressar, e escolhi Cabo Verde para viver em liberdade com a minha mulher e filho”, exteriorizou.

Para concluir, Yosmel volta a apelar às autoridades cabo-verdianas para que façam jus ao estipulado na Constituição cabo-verdiana, e lhe permita exercer a sua profissão aqui em Cabo Verde, dando o seu contributo na melhoria da qualidade de vida e saúde das pessoas.

SC/CP

Inforpress/Fim

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