Falta de prática é o que mais prejudica os alunos na aprendizagem da língua portuguesa – professores

Cidade da Praia, 05 Mai (Inforpress) – Alguns professores que leccionam a disciplina de Língua Portuguesa afirmaram que a falta de prática, relacionada com a falta de interesse ou motivação, ou vergonha, é o que mais prejudica os alunos no processo de ensino-aprendizagem da língua portuguesa.

No Dia Mundial da Língua Portuguesa, assinalado hoje, a Inforpress conversou com alguns professores de diferentes estabelecimentos de ensino do País sobre as dificuldades dos alunos no processo de aprendizagem de língua portuguesa como língua segunda.

A maioria é da opinião de que o hábito dos alunos falarem sempre a língua cabo-verdiana no seu quotidiano faz com que estes tenham dificuldades em se expressar na língua portuguesa.

A professora Marlene Rodrigues, que trabalhou durante 11 anos em Assomada, no concelho de Santa Catarina, e agora está a exercer na Ilha de Santo Antão, sublinhou que as dificuldades são praticamente as mesmas, isto é, falta de interesse ou motivação para aprender ou usar a língua portuguesa.

“Para mim a maior dificuldade que os alunos apresentam no ensino da língua portuguesa é a convivência das duas línguas, a língua crioula e a língua portuguesa, e consequentemente, o não saber o lugar que cada uma ocupa na sociedade e na vida”, disse a professora Marlene Rodrigues, da Escola Secundária Suzete Delgado.

A vida dos alunos, segundo a mesma fonte, ocorre em “crioulo” e estes só falam o português na escola e muitas vezes só nas aulas de Língua Portuguesa, porque os professores de outras disciplinas não exigem que eles falem em português nas salas de aula.

Marlene Rodrigues justificou ainda que os alunos não usam a língua portuguesa por vergonha, porque não sabem a importância de estarem a aprende-la, porque muitos programas não são motivadores e nem muito interessantes, outros simplesmente dizem que não gostam.

No que toca aos conteúdos, afirmou que a maioria dos alunos tem dificuldades gramaticais, principalmente nos verbos, outros têm dificuldades na leitura, e agora com a evolução das novas tecnologias os alunos apresentam dificuldades na escrita, uma vez que nas redes sociais usam mais a língua cabo-verdiana.

“Temos que ensinar aos alunos a importância de saberem falar a língua portuguesa, onde e quando podemos utilizá-la. Ou então, o melhor e maior desafio seria incutir nos alunos que podem falar tanto a língua primeira como a língua segunda fluentemente e de forma normal sem descriminação ou sem serem gozados”, advogou, ajuntado que o importante é fazer com que os alunos aprendem a gostar da língua portuguesa como língua segunda.

Sugeriu ainda aos professores a tornar os programas mais atractivos e com mais ensino da oralidade do que regras gramáticas e ao ministério da Educação propôs que refaça os programas de forma que os professores conseguem adapta-las às realidades de cada ambiente escolar ou ilha.

Na mesma linha de raciocínio, a professora Marina Almeida, que lecciona na Escola Secundária Domingos Ramos, na Cidade da Praia, disse que o facto de os alunos começarem a ter contacto com a língua segunda só no ensino básico isso condiciona muito a aprendizagem.

Por outro lado, ressaltou, há também alunos que já têm uma certa desenvoltura nesse assunto por causa das condições familiares, mais concretamente alunos que têm a possibilidade de ter livros em casa e, obviamente, que têm o hábito de leitura.

“A principal dificuldade encontrada nesse percurso é exactamente na oralidade, porque um aluno que não sabe expressar numa determinada língua, fica travado no momento da escrita”, disse, exemplificado que quando o aluno fala mais tempo o crioulo do que o português, pensa em crioulo para falar o português isto dificulta na organização de ideias.

Para colmatar essas lacunas informou que tenta mostrar aos alunos que o erro faz parte do aprendizado, que qualquer um, até os professores, podem errar e que estão no local certo para aprender.

“Faço a correção dos erros de uma forma suave, ou seja, sem deixar a turma perceber que estou corrigindo e, acima de tudo, não permito que haja risos do erro alheio, durante as minhas aulas. Sinto que tem surtido efeito essas medidas, durante as minhas aulas, proporcionando assim melhoria nos resultados”, regozijou-se.

Por sua vez, a coordenadora da disciplina de Língua Portuguesa na Escola Técnica Cesaltina Ramos, na Cidade da Praia, Elisandra Fernandes, precisou que uma das dificuldades apresentadas pelos educandos é na prática contínua da língua portuguesa.

“Há uma certa resistência por parte dos alunos, mas também uma das dificuldades é a prática contínua da língua. Não que seja uma dificuldade ao fala-la, mais sim, ao perceber que ela é o veículo de comunicação no contexto escolar ou nos contextos formais onde se pede o uso da língua segunda”, notou.

O tempo que os discentes têm para falar a língua portuguesa é restrito e isso, segundo a professora, tem impedido a desenvoltura em aperfeiçoar a língua portuguesa.

Elisandra Fernandes alerta os alunos sobre a importância desta língua, tendo sublinhando que quando a dominam será mais fácil a interpretação do texto, a terem um diálogo fluente e a descodificar os vocabulários.

Na Escola Técnica, avançou, os professores criam dinâmicas, estratégias, actividades lúdicas para que os alunos se sintam à vontade nessas actividades de melhoria.

“Temos dramatização, uso de áudio, leitura na sala de aula, declamação de poemas. Procuramos sempre actividades que põem em prática a língua adaptando ao nosso contexto e assim eles vão se soltando, se sentido mais à vontade e pegando o gosto pela coisa”, disse, ressaltando que dessa forma os estudantes vão aprender de uma forma saudável e não como se fosse uma imposição.

A coordenadora da disciplina de Língua Portuguesa defendeu que é urgente fazer os alunos perceberem que a língua portuguesa é a “língua do conhecimento, língua do trabalho e uma ferramenta de sobrevivência”.

AM/CP
Inforpress/Fim

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