Covid-19: Relançamento da economia passa “fundamentalmente” pela criação da capacidade produtiva interna – economista

Cidade da Praia, 04 Mai (Inforpress) – O economista cabo-verdiano João Cardoso defendeu hoje que o relançamento económico em Cabo Verde, no pós-pandemia, passa, “fundamentalmente”, pela criação da capacidade produtiva e com uma forte aposta na formalização da economia.

Em conversa com a Inforpress, João Cardoso chamou atenção para os efeitos que a injecção do dinheiro na economia, tal como está a acontecer, em Cabo Verde e no mundo, pode ter implicações no aumento dos preços dos produtos, o que na sua perspectiva acabará por piorar, ainda mais, a vida dos mais pobres.

“Estar a dar dinheiro às empresas, não vai resolver os problemas, porque não estão a produzir. Neste momento, já estamos a registar o aumento dos preços dos produtos e, se houver mais dinheiro no mercado, vamos ter mais aumentos. E esta situação acaba por prejudicar aqueles que têm menos rendimento ou que estão sem nenhum rendimento”, explicou.

O economista advogou que, neste momento, o Estado tem de ser providencial e ajudar as pessoas que passam por dificuldades. Neste sentido, considera que a curto prazo, para amenizar a situação e o sofrimento das pessoas, o recurso tem de ser feito à segurança social, que, na sua perspectiva, deve estar a funcionar a 100 por cento.

“A nossa base informal é muito grande e esta é uma oportunidade para colocar todas as pessoas na segurança social, mas agora temos de ter um Estado providencial para ajudar as pessoas, as famílias, acautelar que as pessoas sem nenhum rendimento tenham ajudas e aí a segurança social é fundamental”, disse, realçando a importância da formalização da economia.

Entretanto, perante o cenário actual em que ninguém pode trabalhar e não há produção, o economista chamou a atenção de Cabo Verde e de toda a África no sentido de ser criada a capacidade produtiva interna.

“Se repararmos, a nossa economia gira à volta do turismo e tem a sua base na importação. Sabemos que daqui para a frente o comércio a nível internacional vai ficar mais difícil, mas se tivermos aqui a produção de bens essenciais, as pessoas vão trabalhar, produzir, mesmo que sob restrições e a economia vai funcionar”, observou.

“Por isso, entendo que devemos diversificar a nossa actividade produtiva. Passarmos a produzir internamente, termos nossa agricultura a funcionar, a nossa indústria, com as fábricas a funcionarem e aí estaremos melhor preparados para aguentar situações similares”, sustentou.

O economista João Cardoso acredita que, tendo em conta a abrangência da pandemia, e no momento em que se fala na possibilidade de uma segunda vaga da doença, tão cedo o turismo não voltará a ser motor da economia cabo-verdiana, gerando mais de 20% do produto interno bruto (PIB) do país.

Ainda assim, aconselha um “forte investimento” no sector da saúde, sobretudo, nas ilhas mais turísticas, Sal e Boa Vista, já que segundo indicou, o grupo etário dos turistas que mais procuram o destino cabo-verdiano, é fundamentalmente de pessoas com alguma idade e que se enquadra dentro do grupo de risco.

“Os nossos turistas não são turistas jovens. São pessoas reformadas da Europa e que representam uma camada de risco. Portanto, se Cabo Verde quer relançar o turismo depois da pandemia tem de garantir um sistema de saúde mais robusto”, sublinhou.

O economista frisou que esta pandemia da covid-19, para além de evidenciar as fragilidades do sistema de saúde em Cabo Verde, está também a mostrar o quanto desorganizado é Estado a nível social.

Por isso, salientou que esta é uma oportunidade para o estado organizar-se e tornar um verdadeiro Estado providência.

“Neste momento temos uma situação em que o estado está a apalpar para tentar resolver os problemas porque é um estado desorganizado a nível social. Se tivéssemos um estado organizado seria possível amenizar ainda mais o sofrimento das pessoas porque saberíamos claramente quem tem direito a fundo de desemprego, quem tem direito a pensão social e aqueles que precisavam de cestas básicas”, anotou.

O FMI aponta que a economia cabo-verdiana que cresceu 5,7% em 2019, vai em 2020 ter uma recessão em cerca de -5,5%, com fortes perdas nos sectores do turismo e transportes e nos sectores conexos.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 245 mil mortos e infectou mais de 3,4 milhões de pessoas em 195 países e territórios.

Em Cabo Verde já foram registados até este momento 175 casos e duas mortes. A situação levou à declaração de emergência que foi renovada por duas vezes em algumas ilhas como Santiago e Boa Vista, e que levou à suspensão das ligações inter-ilhas e com o exterior para transporte de pessoas há mais de 40 dias.

MJB/CP

Inforpress/fim

Facebook
Twitter
  • Galeria de Fotos