Boa Vista: Luísa Mosso da Escola de Olaria receia pertencer a última geração a trabalhar o barro

*** Por Vanina Silene Da Luz Dias, da Inforpress ***

Sal Rei, 13 Ago (Inforpress) – Luísa Mosso, da Escola de Olaria de Rabil, teme pertencer a última geração a trabalhar o barro, uma vez que não há jovens com interesse em apreender este oficio.

Luísa Mosso fez estas considerações em entrevista à Inforpress, na Escola de Olaria, criada em 1960, onde, há mais de 30 anos, começou a aprender com o irmão Alcides Morais “Tony” a trabalhar o barro, de onde tirou o sustento para criar os seus quatro filhos.

Mas antes, ainda com nove anos, já ajudava a mãe Cassilda “Jovina” em casa a fazer os preparativos da matéria-prima que é extraída na “fonte” em Ribeira de Rabil, em Barreiro.

Ali, explicou, a matéria-prima era triturada e enchida num saco e levada até as residências para ser molhada e trabalhada. E Cassilda, lembrou, aprendeu a arte com uma geração ainda mais antiga, mais precisamente com uma senhora popularmente conhecida como “Biazinha”.

“Como estou a ver, já seremos a última geração a trabalhar o barro, porque já não vejo os mais novos com interesse em aprender este ofício”, disse Luísa Mosso, mostrando-se disponível em ajudar aos jovens a fazer deste trabalho um meio de auto-sustento, ensinar um oficio que faz parte da história tradicional da cultura oleira na ilha de Boa Vista.

Actualmente, existem cinco artesãos, todos familiares, que moldam o barro com destreza e habilidade, ainda com algumas técnicas ancestrais e que preservam a tradição oleira que aprenderam com os antepassados.

“Tenho uma filha que faz um jeito. Ela está a estudar Engenharia Civil em São Vicente. Mas ela quer se dedicar de forma profissional”, afirmou, sublinhando que se antes este ofício foi a fonte de rendimento para a sua família, hoje já não vê esta profissão a singrar-se nem mesmo dentro da sua árvore genealógica.

Entretanto, Luísa contou um pouco da história e das mudanças da Escola de Rabil, que outrora pertencia a um português de nome Mário, que durante muitos anos produziu peças de artesanato e telhas, algumas das quais ainda nos dias de hoje cobrem as casas de Rabil.

Depois do abandono, explicou, o espaço tornou-se um pardieiro. Mas decidiram juntar as forças limpando-o e começar uma luta diária para tornar a escola num espaço que é hoje, considerado para os artesãos que ali trabalham um santuário da olaria da Boa Vista.

Entretanto, lamentou o facto de ninguém agora se interessarem apreender e seguir a indústria e o negócio de telha, além do mais as maquinas estragaram com o tempo, por falta de uso.
“A cada dia vamos aperfeiçoando o nosso trabalho, e isso conseguimos com muita prática”, disse Luísa, enquanto acrescentava detalhes na escultura de peças de tartaruguinhas, uma das mais vendidas aos turistas.

A este aperfeiçoamento, acrescenta-se o gesso, colocação de vidros e ainda construção de pencas maiores, como vasos. Se outrora as técnicas de trabalhar o barro eram outras, o comércio e a forma de produção das peças também registaram mudança.

Em tempos antigos, “Cassilda”, mãe de Luísa, aguardava por Nené de Regina para comprar as suas peças, que depois seriam vendidas noutras ilhas. Hoje em dia, os turistas dirigem-se a escola para comprar os souvenires.

Para escoar os produtos, vendem-nos também para outras lojas de souvenirs na cidade, alguns hotéis que as vezes fazem alguma encomenda. Já existe também as formas onde tiram os moldes, o que fez aumentar a fabrico, substituindo a produção individual manualmente.

Luísa Mosso contou que actualmente “trabalham por conta própria, mas ao mesmo tempo em regime de cooperativa, em que cada um tira uma cota para custear as despesas do espaço, de luz, água, entre outros gastos.

Mesmo com este receio de falhar esta passagem deste testemunho aos mais novos, Luísa garante que vai continuar diariamente a trabalhar neste oficio que escolheu para ser sua profissão e que lhe garante a sobrevivência.

“Eu sinto-me bem a fazer este trabalho. Aqui faço o meu trabalho tranquilo, sem stress”, concluiu a artesã, que continuou o seu trabalho com a paciência e destreza exigidas nestes ofícios feitos com as mãos.

VD/JMV
Inforpress/fim

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