Boa Vista: Enfermeira Raquel Silva na ilha desde a década de 90 conta histórias e desafios que ainda hoje persistem 

Sal Rei, 12 Mai (Inforpress) – No dia de enfermeiro, a Inforpress foi conhecer Raquel Silva, uma das primeiras enfermeiras a chegar na ilha na década de 90, que recorda e conta histórias de como ela e outras colegas se “desenrascavam” na época para atender a ilha.

Oriunda de uma família que tinha vários membros ligados à área da medicina, a enfermeira não teve como escapar a este ramo. Formou-se em São Vicente, na Escola Hugo de Barros, em 1994. Quatro anos depois, fez o estágio no Hospital Baptista de Sousa.

“Vim de uma família que tem muitas pessoas que trabalham na área da medicina. Cresci nesse mundo. Na altura, tinha a opção de ir para o magistério, mas escolhi enfermagem porque gosto desta área”, conta Raquel, que não se vê a fazer outra coisa que não esta profissão.

Depois do estágio rumou para Boa Vista, onde iniciou a carreira, numa casa, onde actualmente funciona a delegação escolar. Na ilha, começou a traçar o seu percurso, e recorda com algum saudosismo os desafios profissionais que encontrou.

“Antigamente enfermagem era algo interessante. Trabalhávamos muito na base do improviso para “desenrascar” com o que tínhamos para fazer o nosso trabalho”, contou Raquel, que recorda que, por não haver câmara fria, pediam gelo aos hotéis para manter um cadáver frio.

Há outras histórias, e algumas um pouco mais “caricatas”, que segundo diz, quando conta os actuais estagiários e estudantes ficam admirados.

“Para a autópsia, aconteceu algumas vezes, quando vinha um médico legista à ilha para o fazer, não tendo materiais, tínhamos de os pedir emprestado numa oficina de carpintaria, nomeadamente serra e formão. Depois eram desinfectados e devolvidos”, conta.

Mas outros materiais do dia-a-dia eram também desinfectados para reutilização: seringas, luvas, agulhas e outros. E essas carências não passavam somente pelo material, havia falta de recursos humanos, situação que, segundo ela, ainda persiste na Boa Vista.

“Trabalhávamos em regime de chamada onde tínhamos um médico e dois enfermeiros para a vila e outras povoações, excepto Norte, que tinha um enfermeiro efetivo. Trabalhávamos das 08:00 às 15:00”, disse Raquel, acrescentando que quando ela e as colegas ficavam em regime de chamada tinham que escrever um papel colado à porta da estrutura de saúde para informar onde estavam, para serem chamadas para o serviço, numa altura em que ainda não havia telemóvel.

Segundo lembra, faziam de tudo um pouco. Além do trabalho no estabelecimento, percorriam os interiores para procurar os faltosos, as gravidas, vacinação, campanhas de sensibilização, entre outros trabalhos como vistorias junto com a câmara, com a polícia e desinfecção em estabelecimentos.

A enfermeira Raquel, que já viveu muitas experiências na ilha de Boa Vista, é de opinião que, pelo desenvolvimento que aconteceu, tinha que haver mais mudanças a nível da saúde em termos de equipamentos, recursos humanos e, principalmente especialistas.

“Esperava mais da evolução da saúde em Boa Vista. Há progressos noutros patamares enquanto na saúde não acontece para acompanhar este desenvolvimento”, observou.

Na enfermagem vê uma evolução, mas na sua opinião, deveria haver mais pratica nas universidades. “A enfermagem é prática. Cuidar é praticar”, reforçou.

Em Junho, Raquel Silva vai defender a monografia para concluir a licenciatura em enfermagem, e, segundo disse, não se vê a fazer outra coisa. “Enquanto isso, continuo a fazer o meu trabalho com amor, respeito, profissionalismo, dignidade, como desde sempre”, conclui.

VD

Inforpress/Fim

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